Muitas línguas, muitas histórias

Moleque, cafuné, dendê, carimbo… Esta é uma pequena amostra das inúmeras palavras que têm origens em diferentes línguas que viajaram da África e desembarcaram aonde? Na língua portuguesa que falamos no Brasil! Mas quem carrega uma língua são seus falantes, que, por sua vez, também carregam histórias. Que tal uma conversa que costure palavras, línguas, povos e histórias ligadas ao continente africano para explicar um pouco do Brasil que nós somos?

Ilustrações Bruna Assis Brasil

Carimbo. Você deve conhecer essa peça com letras, números ou figuras em relevo, que é usada para marcar livros, documentos, etiquetas… O que talvez você não saiba é que “carimbo” é uma palavra originada de “karimu”, que significa “marca” na língua quimbundo, de Angola. Ela vem de uma prática antiga e violenta de marcar a ferro o corpo das pessoas que eram retiradas da África à força para serem escravizadas nas Américas.

Desde o século 16, o Brasil recebeu africanos vindos de todas as regiões do continente, que hoje formam os atuais países de Angola, Congo, Benim, Nigéria, Moçambique, e vários outros. Em cada uma dessas regiões não se fala uma única língua, falam-se muitas! A capacidade de falar várias línguas – o multilinguismo – é uma característica da diversidade humana. Todos nós temos capacidade de aprender várias línguas. Em muitas sociedades africanas, as pessoas aprendem a sua língua materna com sua família, mas também têm oportunidade de aprender as línguas de povos vizinhos com quem se relacionam, negociando nos mercados e feiras, nos locais de celebração religiosa e outros rituais comunitários.

É importante saber disso, porque essas muitas línguas continuaram sendo faladas aqui, à medida que essas pessoas se reencontravam.

Parece difícil imaginar esse cenário em que muitas línguas são faladas, porque tendemos a achar que a única língua do Brasil é o português. Mas, pense bem, nos dias atuais, além do português, temos também as línguas indígenas, as línguas dos imigrantes, as dos refugiados…

Línguas separadas?

Existe uma certa lenda de que, na época da escravidão, os senhores escolhiam “comprar” uma pessoa escravizada falante de cada língua africana, para evitar que seus escravizados se comunicassem. Isso não é bem verdade. Pelo contrário! Como os africanos foram escravizados não só pelo seu trabalho físico, mas também pelo seu enorme conhecimento, muitas vezes havia uma preferência por alguns povos que traziam consigo técnicas de agricultura, metalurgia, artesanato, e até mesmo matemática, uma vez que eles também participaram da nossa vida comercial.

Além disso, infelizmente, quando os traficantes tinham maior domínio sobre alguns povos, traziam homens, mulheres e crianças de uma mesma região com línguas semelhantes. E, ainda que algum senhor quisesse fazer essa separação, não demoraria para que os falantes de diferentes línguas conseguissem se comunicar, fosse falando suas línguas originárias ou aprendendo outras. Afinal, isso fazia parte do seu dia a dia.

Quimbundo, quicongo, mina-jeje, iorubá

Quimbundo e quicongo são os nomes de duas das muitas línguas que chegaram com os africanos da região Congo-Angola, do século 16 ao 19, que foi a principal origem dos povos aqui desembarcados. Línguas dessa região estiveram muito presentes em várias partes do Brasil. O quimbundo, por exemplo, foi muito falado nas áreas de produção de açúcar, e chegou a ser aprendido pelos jesuítas – os padres portugueses que queriam tornar cristãos os indígenas e os africanos escravizados. Vale saber também que tanto o quimbundo como o quicongo foram línguas faladas no quilombo de Palmares, em Alagoas, um dos principais e mais duradouros quilombos da história.

Da região conhecida como Costa da Mina – que inclui os atuais países de Gana, Togo, Benim e Nigéria, na África Ocidental – foram trazidas também muitas pessoas para serem escravizadas. Entre as que vieram no século 18 e foram para Minas Gerais e Bahia, a comunicação se dava na língua mina-jeje, como foi chamada aqui, mas sua origem está no grupo de línguas “gbe”. Já entre os muitos escravizados que foram para a Bahia na primeira metade do século 19, a língua que lhes permitiu continuar a conversar e manter seus vínculos foi o iorubá (ou nagô). A revolta dos Malês, que aconteceu em 1835 em Salvador, foi tramada, em boa parte, na língua nagô.

Códigos secretos

Longe dos olhos dos senhores, todas as línguas se mantinham vivas nos locais de reunião e de culto aos ancestrais e divindades africanas, nos rituais ou nas festas coletivas dos escravizados, e nos quilombos. Aliás, eram faladas até mesmo em festividades ligadas à Igreja Católica. As irmandades católicas, que eram os únicos locais oficiais onde podia haver uma associação de africanos e descendentes escravizados, acabaram sendo oportunidade para algumas dessas trocas linguísticas. Nas irmandades que faziam devoção à Nossa Senhora do Rosário, Santa Efigênia e São Benedito, por exemplo, os africanos e descendentes cultuavam os santos católicos, mas também mantinham a memória dos seus próprios deuses, ainda que de forma disfarçada.

A comunicação africana encontrou, assim, seus espaços. Seguiu nas danças de roda, como o jongo, e nas religiões de matriz africana. E, claro, muitos africanos aprenderam a se comunicar no próprio português. Estes falantes eram chamados “ladinos”. Os que ainda não sabiam falar português eram conhecidos por um termo que hoje é um insulto: “boçal”.

No Rio de Janeiro, por exemplo, que no século 19 era a capital do Império e tinha o português como língua corrente, muitos africanos aprenderam a língua falada pelos senhores, e era nela que se comunicavam com os companheiros que falavam outras línguas.

Outra presença que mostra como africanos e descendentes souberam muito bem aprender o português e seguir com suas artes da linguagem é a literatura brasileira. Já percebeu como alguns dos nossos mais célebres escritores foram filhos, netos ou bisnetos de africanos? Machado de Assis, Cruz e Souza, Lima Barreto, Jorge de Lima são só alguns desses nomes.

Toda essa diversidade de línguas seguiu atravessando os séculos. Surgiram até línguas secretas, como o cafundó, no estado de São Paulo. O cafundó não é exatamente uma língua africana, mas une o português com palavras de línguas africanas que tornam sua fala quase um código. Foi uma forma que os escravizados encontraram de manter a identidade africana, e até de zombar com quem não a entendia. Acontecia, por exemplo, nos cantos e poesias do jongo, que mistura português com palavras de outras línguas, como o quimbundo. Até mesmo o samba tem palavras que, hoje em dia, muita gente ouve e não sabe o que significa, como benguelê, quizumba, canjerê… E a ideia era não saber mesmo! O samba é uma das mais importantes manifestações das artes poéticas que os povos africanos trouxeram para a nossa história.

Na ponta da língua

Toda essa diversidade linguística que há em nosso país é um tesouro a ser preservado. Mas onde estarão as marcas dessas línguas de origem africana?

As religiões de matriz africana são o principal exemplo de manutenção dessas línguas. Elas estão nos rituais de candomblé nagô, candomblé mina-jeje e candomblé angola, por exemplo. Estão também entre os quilombolas, ou seja, pessoas descendentes de escravizados que fugiram da escravidão e se organizaram em comunidades chamadas quilombos. Nas comunidades quilombolas, o português é falado com sotaques e vocabulários próprios, porque as línguas são vivas.

Algumas palavras trouxeram ideias importantes para que os escravizados conseguissem continuar resistindo à dureza da escravização. Malungo, que significa companheiro de viagem nos navios negreiros, é uma palavra que ganhou um significado importante, de uma amizade que poderia ser mantida. Macota, que expressa o respeito aos mais velhos, foi outra ideia importante para manter a memória e os laços sociais.

Para que essas línguas enriqueçam a nossa história e não sejam apagadas, precisamos respeitá-las e defender que o Brasil não é um país de uma língua só. Nos últimos anos, avançamos muito nas discussões sobre racismo, mas pouco falamos sobre o preconceito linguístico. A diversidade é o que nos torna um país tão particular. E certamente as línguas africanas têm um papel fundamental nisso. Axé – que em iorubá quer dizer: “te desejo felicidade!”.

Ivana Stolze Lima
Fundação Casa de Rui Barbosa

Matéria publicada em 31.10.2023

COMENTÁRIOS

  • Alexia Ayla Primo Acris

    eu gostei muito e achei muito interessante

    Publicado em 22 de novembro de 2023 Responder

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admin

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