A imagem deste senhor de barba é uma das fotografias mais conhecidas de Charles Darwin, o famoso naturalista inglês que viveu no século 19. Darwin, que tinha grandes conhecimentos de biologia e geologia, fez uma viagem ao redor do mundo a bordo do navio HMS Beagle. E foi durante esta incrível aventura pelas mais diferentes paisagens da Terra que ele observou os mais diversos seres vivos e começou a pensar muito sobre como e por que as espécies mudam ao longo do tempo. Darwin foi ficando seguro de que era o ambiente que determinava as características dos seres vivos. Ou, em outras palavras, estava certo de que diferentes grupos de seres vivos iam sofrendo adaptações em suas características ao longo das gerações.
Os pensamentos, ou melhor, a teoria da evolução de Darwin foi publicada em 1859, no livro A Origem das Espécies. Esta obra mudou para sempre a forma como a ciência descreve a história da vida na Terra. E, merecidamente, Darwin passou a ser considerado um dos maiores cientistas de todos os tempos. Mas esse texto não é sobre a evolução das espécies, é sobre a infância de Darwin. Às vezes, a gente tem a impressão de que cientista já nasceu adulto, né? Pois vamos espanar essa ideia agora mesmo!
Charles Robert Darwin. Assim foi registrado o menino que nasceu em 12 de fevereiro de 1809, em uma casa grande e bonita, feita de tijolos vermelhos e com jardins incríveis, em Shrewsbury, uma cidade da Inglaterra. Seu pai, Robert Waring Darwin, era um médico muito conhecido por ser simpático e inteligente, o que o ajudava a ganhar a confiança de seus pacientes. Já sua mãe, Susannah Darwin, sofria em casa como secretária de Robert, porque ele, apesar de ser amigável com seus pacientes, não era muito gentil com a família. Charles era o quinto filho do casal e recebeu o nome em homenagem aos dois médicos da família: Charles, seu tio que já havia falecido, e Robert, seu pai.
Um menino sonhador, forte e com cabelos castanhos encaracolados, assim era Charles. Seu nariz, que era parecido com o do pai, o incomodava bastante. Ele chegou a reclamar com um amigo de escola que o seu nariz era “do tamanho de um punho” – que exagero! Charles era quieto e tímido na maior parte do tempo, talvez porque tivesse dificuldades para falar sem gaguejar. Ele adorava explorar as trilhas dos campos ao redor de sua casa, procurando por pássaros e seguindo Abberley, o velho jardineiro da família. O interesse de Charles pelas plantas e pelos animais já era um sinal da sua conexão com a natureza.
Charles tinha três irmãs – Marianne, Caroline e Susan – e um irmão – Erasmus –, todos mais velhos que ele, e que o mimavam muito. Quando tinha apenas quinze meses de vida, Charles ganhou uma irmã mais nova chamada Catherine, com quem costumava brincar muito. Em um retrato de família de 1816, os dois aparecem juntos segurando plantas da estufa do pai. Esse contato com animais e plantas e o convívio com a família com certeza influenciaram a personalidade e a formação do futuro cientista.
A educação de Charles e Catherine começou em casa, com os ensinamentos de sua irmã mais velha Caroline, que cuidava das crianças como se fosse governanta. Na presença de Caroline, Charles (carinhosamente apelidado de “Bobby” ou “Charley”) era um menino muito animado e travesso, sempre querendo atenção e elogios da irmã. Certa vez, ele tentou quebrar uma janela quando foi trancado em um quarto como castigo.
Ao completar 8 anos, Charles foi enviado para estudar em uma escola paroquial. Ele gostava mais da escola do que do ensino em casa com Caroline, porque achava que aprendia muito mais rápido na escola do que com sua irmã.
Apesar de sua origem em uma família rica, Charles era considerado um menino simples. Em casa, ele passava muito tempo lendo – lia até debaixo da mesa da sala de jantar. Um dos livros que Charles gostava era Robinson Crusoé, obra que atravessa gerações e relata as aventuras de um náufrago em uma ilha deserta.
O pequeno Darwin também gostava de passar horas pescando no rio perto de sua casa. Um pouco mais crescido, usava minhocas como isca, mas, antes de colocá-las no anzol, ele as matava em água salgada para que não sofressem quando espetadas.
Charles também gostava de caminhar pela praia e de observar aves marinhas. Mas o que adorava mesmo era colecionar coisas! Tinha coleções de conchas, selos, ovos de pássaros, minerais, insetos… Quando adulto, chegou a dizer: “A paixão pela coleção era muito forte em mim”.
Um dia, enquanto visitava a costa de Gales, ele ficou muito animado ao encontrar uma cobra e alguns besouros vermelhos em frente à casa na qual estava hospedado. Esse prazer que ele sentia em colecionar objetos e em encontrar animais deve ter sido uma forte influência em seu crescente entusiasmo pela natureza.
Certa vez, durante um passeio no campo, Charles viu dois besouros raros e os pegou, um em cada mão, a fim de estudá-los. Depois, avistou outro besouro raro, o qual não ousaria perder. Na tentativa de pegá-lo, Darwin fez algo muito errado: colocou o besouro que estava na mão direita na boca – arghhh! Sabe o que aconteceu? O besouro cuspiu um líquido muito forte que “queimou” a língua de Charles. Ele teve que cuspir o bicho imediatamente, perdendo os outros pelos quais estava interessado. Já em outra ocasião, uma vespa pousou no rosto de Charles, que se levantou silenciosamente do sofá e ficou olhando para si mesmo no espelho até que a vespa fosse embora.
As experiências que Charles Darwin vivenciou quando era criança foram muito importantes para ele se tornar um grande cientista. Ele realmente era apaixonado por observar a natureza e estudar sobre diferentes espécies de animais e plantas – o que foi fundamental para o desenvolvimento de sua teoria sobre como os seres vivos mudam ao longo do tempo.
Assim como você, Charles também era uma criança muito curiosa e fazia diversas perguntas sobre o mundo à sua volta. Será que a sua curiosidade vai fazer com que o seu nome também entre para a história da ciência?!
João Pedro Ocanha Krizek
Departamento de Ensino e História das Ciências e da Matemática
Universidade Federal do ABC
Luciana Cavalcanti Maia Santos
Coordenadoria de Pesquisa, Inovação e Pós-Graduação
Instituto Federal de São Paulo
Matéria publicada em 31.07.2023