Uma carta

Os escritos de Luiz Gama, um abolicionista

Ilustração Bruna Assis Brasil

De: Luiz Gama (ex-escravizado, escritor, poeta, advogado e abolicionista)

Para: Lúcio de Mendonça (advogado, jornalista e abolicionista)

 

São Paulo, 25 de julho de 1880

Meu caro Lúcio,

 

Aí tens os apontamentos que me pedes, e que sempre eu os trouxe de memória. Nasci na cidade de São Salvador, capital da província da Bahia, a 21 de junho de 1830, pelas sete horas da manhã, e fui batizado, oito anos depois, na igreja matriz do Sacramento, da cidade de Itaparica. Sou filho natural de uma negra, africana livre, da Costa Mina (Nagô de Nação), de nome Luíza Mahin, pagã, que sempre recusou o batismo e a doutrina cristã. Minha mãe era baixa de estatura, magra, bonita, a cor era de um preto retinto e sem lustro, tinha os dentes alvíssimos como a neve, era muito altiva, geniosa, insofrida e vingativa. Em 1837, depois da Revolução do doutor Sabino, na Bahia, veio ela ao Rio de Janeiro, e nunca mais voltou. Nada mais pude alcançar a respeito dela.

Meu pai, não ouso afirmar que fosse branco, porque tais afirmativas neste país constituem grave perigo perante a verdade, no que concerne à melindrosa presunção das cores humanas: era fidalgo; e pertencia a uma das principais famílias da Bahia de origem portuguesa. Devo poupar à sua infeliz memória uma injúria dolorosa, e o faço ocultando o seu nome.

Ele foi rico; e nesse tempo, muito extremoso para mim: criou-me em seus braços. Foi revolucionário em 1837. Era apaixonado pela diversão da pesca e da caça; muito apreciador de bons cavalos; jogava bem as armas, e muito melhor de baralho, armava as súcias e os divertimentos: esbanjou uma boa herança, obtida de uma tia em 1836; e reduzido à pobreza extrema, a 10 de novembro de 1840, em companhia de Luiz Cândido Quintela, seu amigo inseparável e hospedeiro, que vivia dos proventos de uma casa de tavolagem, na cidade da Bahia, estabelecida em um sobrado de quina, ao largo da praça, vendeu-me, como seu escravo, a bordo do patacho Saraiva. (…)

Eis o que te posso dizer, às pressas, sem importância e sem valor; menos para ti, que

me estima deveras.

 

Teu Luiz.

*Luiz Gama foi um grande advogado dos oprimidos. Libertou mais de quinhentas pessoas negras injustamente escravizadas e defendeu imigrantes pobres explorados por donos de terras brasileiros. Em 1880, ele escreveu esta carta para o seu amigo Lucio de Mendonça, uma minibiografia que contava um pouco de sua história.

Fonte: Instituto Moreira Salles
https://correioims.com.br/carta/lances-doridos/

Matéria publicada em 01.11.2022

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