
Os primeiros humanos viviam dentro da terra. Ninguém sabia da existência deles.
Em um dia de temporal, quando o céu estava muito carregado e carrancudo, um relâmpago partiu uma rocha enorme em dois pedaços. Deles, nasceram dois indígenas. O primeiro a tomar forma se tornou o mais sábio. O outro, mais novo, era traquina.
Estranhando o mundo na superfície, onde não tinha mais ninguém além deles dois, os irmãos resolveram procurar por outras pessoas na floresta. Sem sucesso. Não existia mesmo mais ninguém…
Andando pela mata, eles resolveram deixar milho espalhado no chão para os passarinhos. Observando bem o lugar onde jogaram o milho, viram que uma pedra se moveu.
Debaixo da pedra, algumas mãos saíram para pegar o milho do chão. Os indígenas ficaram curiosos com a visão que tiveram, mas seguiram organizando a vida. Ali, naquele mesmo local, construíram suas ocas. E não é que, de repente, várias pessoas começaram a sair de dentro da terra?!
Muita gente parecia brotar do solo, levantando os pedaços de pedras do chão. Vários indígenas e não indígenas povoaram todo o espaço. Foram feitas novas ocas e também casas mais distantes. Havia crianças, adultos e os mais velhos.
O irmão mais velho e sábio resolveu ensinar às pessoas que vieram de dentro da terra a sua língua, Makurap. Combinou assim com o irmão mais novo:
– Vamos colocar todo mundo em fila para ensinar nossa língua. Eu vou por um lado e você, pelo lado oposto.
O irmão mais novo achou a ideia muito boa, mas, no meio do caminho, resolveu fazer diferente. Pensou com sua cabeça traquina:
– Acho que uma língua só não é o bastante para tanta gente.
E ensinou outras línguas no seu lado da fila: suruí, tembé, tupari e várias outras, incluindo português.
Quando os dois irmãos se encontraram, terminando o trabalho, o mais velho teve uma grande surpresa: todas as línguas do mundo foram espalhadas no lado do seu irmão mais novo, que ria alto da sua própria traquinagem.
A confusão estava feita. Ninguém mais se entendia! Muito bravo, o irmão mais velho disse:
– Era para ensinar somente a nossa língua, Makurap!
O mais novo deu de ombros, enquanto observava o barulho das pessoas tentando conversar. O irmão mais velho tentava consertar a bagunça e ensinar uma só língua. Mas era tarde: todas as línguas do mundo já faziam parte da cultura dos povos espalhados no planeta.
*Makurap é o nome do povo indígena que vive no Brasil, no sul de Rondônia, às margens do rio Guaporé. Makurap também é a língua que eles falam nas aldeias. Essa narrativa de tradição indígena foi livremente adaptada pela CHC.
Matéria publicada em 02.11.2026