O caminho do sal

Um mergulho foi suficiente para Marinho chegar a uma conclusão: o mar é salgado! Era a primeira vez do menino no litoral. Estava de férias. Deixou por alguns dias a sua cidade no interior para aproveitar a praia, e não parava de perguntar: “por que a água do rio lá de onde eu moro não tem uma única pitadinha de sal e o mar parece concentrar todos os saleiros do mundo?”. Estava ele, no meio da sala, divertindo a família com essa conversa, quando a campainha tocou. Era a sua tia Janaína, uma moça sorridente, de cabelos encaracolados, que veio especialmente para conhecer o sobrinho. Algum adulto gritou: “Sua tia é oceanógrafa, Marinho! Será que ela pode explicar por que o mar é salgado e o rio, sem sal?”. Rapidamente, os caracóis dos cabelos de Janaína se mexeram e ela disse: “Mas a água do rio também tem sal!”. O espanto foi geral, e todo mundo começou a falar ao mesmo tempo: “como assim?”, “água de rio não é doce?”, “pega um refresco que esse assunto vai render!”. E rendeu mesmo! Vem saber o que Marinho descobriu!

O caminho do sal
Ilustração Mariana Massarani

O mar é imenso, e aquela água toda, quando avistamos da praia, nem parece tão salgada. Mas basta um mergulho (splash!) para a dúvida desaparecer! A água do mar é salgada sim, porque é formada por muitos sais e outros minerais dissolvidos. O sal mais comum é o cloreto de sódio, o mesmo que usamos para cozinhar. Ele representa a maior parte dos sais presentes no oceano. Além do cloreto de sódio, existem outros minerais importantes, como magnésio, cálcio, potássio e sulfato.

Em média, cada litro de água do mar contém cerca de 35 gramas de sal. Imagine colocar aproximadamente duas colheres de sopa rasas de sal em uma garrafa de um litro de água. Essa é, mais ou menos, a quantidade de sal encontrada na água do oceano.

É uma boa quantidade de sal, mas será que ela é igual em todos os mares do planeta? A resposta é não! Em lugares onde chove bastante ou onde há muito gelo derretendo, entra mais água doce no oceano e a quantidade de sal fica um pouco menor. A regiões polares, a Antártica e o Ártico, são bons exemplos.

Já em regiões muito quentes e secas, onde a evaporação é intensa e quase não chegam rios, a água vai embora mais depressa do que o sal. Assim, a água fica mais salgada. É o caso do Mar Mediterrâneo, localizado entre a Europa, a África e a Ásia. Ali, a evaporação é muito grande e entra pouca água doce. Por isso, a água é mais salgada que a média dos oceanos.

De onde vem tanto sal?

Grande parte do sal presente nos oceanos vem das rochas da Terra. A água que chega ao oceano vem de rios e córregos, compostos por água doce, mas que também contêm sais e minerais que foram dissolvidos das rochas terrestres.

A chuva é uma verdadeira escultora da natureza. Ao cair sobre montanhas e pedras, ela vai desgastando as rochas bem devagar, quase como uma lixa muito delicada. Nesse trabalho lento, pequenos pedaços de minerais se soltam das rochas e são levados pelos rios e riachos até o oceano. É assim que eles também ganham um pouco de sal nessa jornada.

A medida certa

Ora, se os rios carregam sais, por que eles não têm gosto salgado? A resposta é… porque a quantidade de sais nos rios é muito pequena e está misturada em um grande volume de água. É como colocar uma pitadinha de sal em uma piscina: ninguém conseguiria sentir o gosto. E é justamente por parecer que não tem sal que a água dos rios é considerada doce.

No oceano acontece algo diferente. Ele é um grande depósito de sais. Durante milhões e milhões de anos, os rios foram (e continuam) levando pequenas quantidades de sais para a água do mar. Sozinho, cada rio leva muito pouco. Mas juntos, e durante tanto tempo, eles acabam fazendo acumular uma enorme quantidade de sal.

Além disso, quando o Sol aquece o mar, apenas a água evapora para formar as nuvens. Os sais continuam lá. Por isso, vão se acumulando ao longo do tempo.

O caminho do sal
O sal presente nos oceanos vem das rochas da Terra, que também contêm sais minerais, como cálcio e magnésio.
Gráficos Marcelo Pacheco

Fundo do mar salgadinho

Existe outra fonte importante de minerais escondida nas profundezas do oceano. No fundo do mar, há rachaduras na crosta terrestre por onde circula água muito quente, aquecida pelo magma, material extremamente quente e pastoso que compõe o interior da Terra. Essa água dissolve minerais das rochas. Depois, o líquido rico em minerais volta ao oceano por aberturas chamadas fontes hidrotermais, acrescentando ainda mais sais e outros minerais à água do mar.

Os vulcões submarinos também liberam minerais durante suas erupções, contribuindo para essa, digamos, mistura salgadinha que forma a água do oceano.

O caminho do sal
Fontes hidrotermais vêm de aberturas no fundo do mar que expelem água muito quente, rica em sais minerais, que, por sua vez, vão direto para o oceano.
Foto NOAA

Tempero equilibrado

Se o sal só entra, por que o mar não fica cada vez mais salgado? Esta é uma ótima pergunta! Na verdade, o oceano funciona como uma banheira com a torneira aberta e o ralo funcionando ao mesmo tempo. Se entra a mesma quantidade de água que sai, o nível permanece igual.

Com o sal acontece algo parecido. Enquanto rios e fontes hidrotermais levam sais para o oceano, outros processos retiram parte deles. Em alguns lugares, os sais formam cristais e ficam presos nas rochas do fundo do mar. Alguns minerais também passam a fazer parte das conchas, dos esqueletos e das estruturas produzidas por muitos organismos marinhos. Graças a esse equilíbrio, a salinidade média dos oceanos permanece relativamente estável há milhões de anos.

Lagos salgados

Existem lugares ainda mais salgados do que a água do mar: são lagos que têm uma salinidade ainda maior que a do oceano. Eles estão localizados em regiões áridas, onde o fornecimento de água doce é limitado e a evaporação é elevada. Como resultado, a quantidade de sal é concentrada e muito maior que em outras regiões. É o caso do Mar Morto, que, apesar do nome, é um lago, e não é completamente sem vida – alguns microrganismos conseguem viver ali. Ele fica localizado entre Israel e a Jordânia, na região chamada Oriente Médio. Ali, há cerca de 340 gramas de sal por litro de água, quase dez vezes mais do que no oceano.

Como quase não entra água doce e a evaporação é muito intensa, o sal vai ficando cada vez mais concentrado. É por isso que as pessoas conseguem boiar com tanta facilidade no Mar Morto, porque a água salgada é mais pesada e empurra o corpo para a superfície.

O caminho do sal
O Mar Morto na realidade é um lago muito salgado onde quase não entra água doce.
Foto Unsplash

Longa caminhada

Marinho foi à praia no dia seguinte se sentindo o maior especialista do mundo em água salgada. Dias depois, já de volta à sua cidade, quis nadar no rio com os amigos para contar que tinha uma tia oceanógrafa e que ela explicou que nos rios também há sal. Foi um espanto geral, um tal de todo mundo falar ao mesmo tempo… Aí, Marinho explicou tudo tintim por tintim, do jeitinho que tinha aprendido com a tia Janaína!

Tássia Oliveira Biazon,
Cátedra UNESCO para a Sustentabilidade do Oceano,
Universidade de São Paulo.
Ressoa Oceano.

Matéria publicada em 01.08.2026

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