Oceano bem nutrido???

Será que o excesso de nutrientes é sempre bom?

Ilustração Jaca

Essa conversa é sobre enriquecimento orgânico do oceano! Antes que você torça o nariz por achar o termo difícil, vamos pensar em como funciona uma composteira.

A composteira é um conjunto de caixas onde colocamos o lixo orgânico gerado em nossa cozinha. Depositamos nela restos de vegetais, borra de café, cascas de ovos etc., para que esse material se decomponha em elementos mais simples, que chamamos de nutrientes, como nitrogênio e fósforo. Esses nutrientes são utilizados pelos vegetais para crescer e se reproduzir, gerando alimento para os animais. Assim, os nutrientes circulam entre os seres vivos e o ambiente, o que é algo necessário à vida e ao equilíbrio do planeta. Agora vamos ligar os assuntos…

O esgoto de nossas casas também é muito rico em matéria orgânica, presente nas fezes e na urina, e também nos restos de alimentos. Podemos concluir que uma única casa produz muita matéria orgânica, certo? Agora imagine a quantidade gerada por uma cidade inteira? Pois é aí que mora um problemão… O esgoto de cerca de 100 milhões de pessoas no Brasil não é tratado, ou seja, é despejado de maneira errada. Quando boa parte desse esgoto e o lixo orgânico são despejados nos rios e nos mares, ocorre um aumento na quantidade de nutrientes nesses ambientes, causando vários problemas. Um deles é o crescimento excessivo de algas e plantas aquáticas. Esse fenômeno gerado pela poluição orgânica é chamado eutrofização (palavra que vem do grego e significa ‘bem nutrido’).

Um rio poluído geralmente tem águas turvas, mau cheiro e pouca quantidade de vida. Quando não há peixes, dizemos que o rio está “morto”. No oceano, por conta da poluição por esgotos, também existem “zonas mortas”. Isso acontece por causa da eutrofização, que contribui para a diminuição do oxigênio disponível na água, elemento fundamental para decomposição da matéria orgânica. Além disso, o excesso de nutrientes resultante da eutrofização faz com que as algas microscópicas que habitam as águas cresçam excessivamente. Em grandes quantidades, elas deixam a água turva, diminuindo a entrada de luz. Com pouca luz, a fotossíntese não acontece, que é o processo pelo qual as algas e plantas produzem seu alimento, a glicose, a partir da luz solar e do gás carbônico.

Entendeu que a eutrofização causa alterações na qualidade da água, que levam à diminuição do oxigênio e da produção de alimento (glicose), podendo causar a morte de vários organismos? Pois é! Como se não bastasse, a grande quantidade de microalgas nas águas também pode causar um “entupimento” nas brânquias dos peixes, dificultando a respiração deles até levá-los à morte. Para piorar, muitas dessas microalgas produzem substâncias tóxicas aos animais e aos seres humanos. Se comermos um peixe, ostra ou camarão que tenha toxinas de microalgas acumuladas em seu corpo podemos ter alergias, diarreias ou outros problemas de saúde.

Acontece que as microalgas não são as vilãs da história. Ao contrário, elas são importantíssimas para o equilíbrio do planeta. São responsáveis pela produção de metade de oxigênio da atmosfera. Elas também são as principais bases alimentares da vida aquática. Imagine que, para um atum atingir 10 quilogramas, são necessários 100.000 quilogramas de microalgas para sustentar o seu crescimento. O problema está no esgoto lançado em rios e mares sem tratamento adequado.

Para preservar a saúde do oceano, temos de fazer a nossa parte como cidadãs e cidadãos conscientes, tendo cuidado com o nosso lixo e também cobrando dos governantes o saneamento básico.

Um dos grandes desafios que a humanidade tem pela frente é o de despoluir o oceano. Vamos juntos?


Flávia Saldanha-Corrêa
Instituto Oceanográfico da USP

Tássia Biazon
Cátedra UNESCO para a Sustentabilidade do Oceano
Universidade de São Paulo  

Matéria publicada em 30.10.2023

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