A cientista que descobriu o núcleo da Terra!

Essa é a história de uma menina que nasceu na Dinamarca no ano de 1888. Seu nome era Inge Lehmann. Naquela época, poucas mulheres seguiam carreiras científicas, e a nossa protagonista foi uma delas. Inge não só se tornou cientista como fez uma grande descoberta: a de que o núcleo da Terra continha uma camada ainda mais profunda e sólida, o núcleo interno! Vamos acompanhar os passos de Inge?

Ilustração Bruna Assis Brasil

No começo dos anos 1900, na Dinamarca, Inge Lehmann era uma menina tímida, mas muito curiosa. Seu pai, um cientista, acreditava que meninas e meninos deveriam aprender as mesmas coisas, o que era bem raro na época. Por isso, ele colocou Inge em uma escola inovadora, dirigida por Hanna Adler, uma educadora pioneira e tia de Niels Bohr, um físico famoso que ajudou a desvendar os mistérios do átomo.

Na escola, Inge descobriu seu amor por matemática e ciência. Ela e seus colegas aprenderam também bordado, trabalhos em madeira e jogaram futebol juntos. Aos 18 anos, obteve a melhor nota para entrar na Universidade de Copenhague. Lá, começou a estudar matemática, química e física. Depois, foi para Cambridge, na Inglaterra, uma das melhores universidades do planeta, onde continuou estudando matemática, a partir de 1910.

Inge Lehmann
Foto Wikipédia

Pedras no caminho

A jornada universitária, porém, não foi tranquila para Inge. Por ser mulher, ela não podia participar de todas as aulas e atividades como os homens. Os exames finais, difíceis e competitivos, a levaram a um esgotamento mental. 

Em 1912, Inge voltou para a Dinamarca, onde passou alguns anos trabalhando com números e cálculos em um escritório. Mas, em 1918, retomou os estudos e, em apenas dois anos, concluiu o curso de ciências e matemática, uma grande conquista, já que poucas mulheres conseguiam fazer isso na época.

Virando o jogo

No ano de 1925, Inge Lehmann começou a trabalhar com Niels Erik Nørlund, um cientista dinamarquês que estudava terremotos. Ao descobrir que era possível investigar a estrutura interna da Terra usando sismologia, ciência que analisa a propagação das ondas geradas pelos terremotos, ela ficou muito interessada no assunto e começou a estudar sozinha. Esse foi apenas o começo de sua incrível carreira na ciência. Graças à sua dedicação, Inge foi escolhida para representar a Dinamarca em um grande encontro internacional de cientistas que estudavam a Terra.

Em 1928, a cientista foi enviada para a Alemanha, para um curso de sismologia, no qual teve aulas e trabalhou com Beno Gutenberg, famoso sismólogo alemão que determinou a profundidade e o estado físico do núcleo externo terrestre. Na época, acreditava-se que este núcleo metálico líquido era a camada mais profunda da Terra. Mas Inge desfez essa crença vinte anos depois, propondo a existência de uma camada mais interna e sólida, o núcleo interno, tudo baseado em observações, análises e muita persistência.

Benditas cópias!

No verão de 1929, Inge Lehmann assumiu a chefia do novo Departamento de Sismologia do Instituto Geodésico Dinamarquês. Ela passou a ser responsável pela operação das estações que monitoram os terremotos, com o apoio de alguns assistentes técnicos. 

Em 1932, Inge escreveu uma carta para um dos maiores sismólogos do mundo, Harold Jeffreys, contando o que havia descoberto após sua análise de vários registros de terremotos. Em um grande sismo ocorrido na Nova Zelândia, de magnitude 7,8, ela percebeu que apareciam certos sinais de ondas sísmicas em lugares onde, pelo modelo da Terra que se conhecia na época, esse tipo de onda não deveria existir, ou seja, as ondas sugeriam que havia algo diferente dentro da Terra que ainda não tinha sido levado em conta pelos cientistas.

Confiante, interpretou a presença das novas ondas como originárias de desvios em uma camada sólida ainda mais profunda da Terra, um núcleo interno, e se prontificou a enviar os dados ao famoso pesquisador.

A resposta de Jeffreys foi desanimadora. Pediu que ela não enviasse mais dados, porque estava muito ocupado para analisá-los. Como Inge era muito organizada, ela redigia suas cartas usando papel carbono para fazer cópias e guardava todas as correspondências com o pesquisador. Foram essas informações que ficaram na história!

Enfim, reconhecimento

Sem desanimar com a falta de atenção de Jeffreys, Inge publicou os resultados de suas pesquisas em 1936 num artigo com o simples título: P’, no qual mostrava que aqueles registros de ondas sísmicas na Nova Zelândia só faziam sentido se existisse, dentro do núcleo líquido da Terra já conhecido, um núcleo interno sólido. Renomados sismólogos aceitaram a teoria dois anos depois, mas Jeffreys só a reconheceu formalmente em 1939, sete anos após a carta enviada por Inge.

Depois de se aposentar, em 1953, Inge se dedicou mais livremente ao estudo da estrutura da Terra, e, no final da década de 1960, publicou suas conclusões sobre uma outra camada ainda desconhecida, a 220 quilômetros de profundidade, que ficou conhecida como “descontinuidade de Lehmann”.

Título demorado

Inge recebeu seus maiores títulos acadêmicos já com quase 80 anos de idade: de doutora honoris causa pelas universidades de Columbia e de Copenhague. O próprio Jeffreys, finalmente, manteve correspondência com Inge até os anos 1960, e incorporou diversas outras descobertas da cientista em seus modelos da Terra, que são a base do que se conhece sobre o planeta atualmente. Ainda assim, eles nunca publicaram artigos juntos.

Em 1971, Inge foi a primeira mulher a receber uma grande honraria da União Geofísica Americana, a Medalha Bowie, um dos prêmios mais importantes da geofísica. Embora reconhecida, a única sismóloga existente na Dinamarca por mais de 25 anos não teve vida fácil na ciência. Consta que ela própria teria afirmado a seu sobrinho certa vez: “Você não imagina quantos homens incompetentes tive que enfrentar — em vão”.

A cientista que descobriu o núcleo sólido da Terra escreveu artigos até seus 99 anos de idade.
Reprodução

Dia do Geofísico

Em 2020, a Sociedade Brasileira de Geofísica propôs a criação do Dia do Geofísico. Dentre as diversas propostas para a data, duas incluíam Inge Lehmann: 13 de maio, seu aniversário, e 31 de maio, data em que ela redigiu a carta afirmando ter descoberto o núcleo interno da Terra. A escolha foi por 31 de maio.

Inge faleceu em 21 de fevereiro de 1993, aos 104 anos de idade, tendo publicado seu último artigo aos 99 anos! Em sua trajetória acadêmica, ela publicou 58 artigos científicos.

Como último ato de pessoa notável, ela doou toda sua herança e fortuna para a Academia Dinamarquesa de Ciências e Letras, que utiliza os recursos para, a cada ano, fornecer financiamento para uma viagem de qualificação a um psicólogo e um geofísico, alternadamente. 

Renata Regina Constantino Barrella e Eder Cassola Molina
Departamento de Geofísica
Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas
Universidade de São Paulo

Matéria publicada em 02.03.2026

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