
Você sabia que há terremotos em outros planetas? A missão estadunidense InSight detectou esses tremores em Marte! A sonda chegou ao planeta vermelho em 2018, realizou diversos experimentos e instalou o primeiro sismômetro, aparelho que registra os tremores, na superfície de Marte. O instrumento, extremamente sensível, teve que ser protegido do vento por um escudo e registrou 1.319 terremotos em Marte (chamados marsquakes) até o encerramento da missão, em 2022.
Na Terra, os terremotos normalmente ocorrem pelo movimento das placas tectônicas, mas em Marte não existe esse fenômeno. Os abalos sísmicos, como são chamados esses tremores, são causados principalmente por dois mecanismos: rochas de seu interior que se fraturam por calor e pressão, e choque de meteoroides, que são pedaços de rochas que vêm do espaço.
O maior terremoto marciano captado até o momento ocorreu em maio de 2022 e gerou um conjunto de ondas sísmicas que durou cerca de 10 horas e percorreu o planeta todo. A razão foi a liberação da pressão acumulada nas rochas do seu interior. O Sul do planeta vermelho é velho, montanhoso e cheio de crateras, enquanto o Norte é jovem, plano e mais liso. A borda entre eles é uma das estruturas geológicas mais marcantes de Marte, e essa separação de estruturas no solo marciano propicia terremotos intensos.
Recentemente, foram analisados novamente diversos terremotos e tremores menores detectados pela InSight. Oito deles se destacaram por terem percorrido o manto do planeta (uma camada mais profunda que a crosta, que chega a 1.600 quilômetros de profundidade). A análise e interpretação desses dados levaram a evidências da existência de grandes blocos de rochas, de diferentes composições, presentes na região do manto. Na Terra, a atividade das placas tectônicas permite que as estruturas do manto permaneçam intactas ao longo dos bilhões de anos. Já em Marte, e provavelmente em Vênus e Mercúrio, esse processo não ocorre.
Mas como esses enormes blocos ocultos no manto marciano surgiram? A explicação mais consistente é que sejam restos de asteroides ou protoplanetas (astros em formação) que colidiram com Marte no início da formação do Sistema Solar, produzindo vastos oceanos de magma (rochas derretidas), que se solidificaram nas profundezas do planeta. A falta de um mecanismo eficiente para reciclar esse material permite sua existência até os dias de hoje.
Você imaginava que é possível saber tanto sobre um planeta analisando dados de terremotos?

Eder Molina
Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas
Universidade de São Paulo
Sou paulista, e já nem lembro quando nasci… Sempre fui curioso sobre o porquê das coisas, e desde criança tinha meu clubinho da ciência. Hoje sou professor de Geofísica e continuo xereta e buscando aprender muitas coisas, principalmente sobre a Terra e o Sistema Solar.
Matéria publicada em 09.03.2026